25.7.07

Digo não ao radicalismo


É cada vez mais comum eu ler matérias, especialmente na imprensa norte-americana, sobre a mudança no modo como os animais para abate são criados, alimentados e sacrificados. Sobre como cada vez mais estados estão proibindo a venda de foie gras e até de vitela.

Nos Estados Unidos, muito mais que aqui no Brasil, os ativistas ecológicos e dos direitos dos animais têm demonstrado cada vez mais força e alcançado cada vez mais objetivos.

Nesta quarta-feira, o jornal New York Times publicou uma matéria falando como esses ativistas perceberam que ao invés de "endemonizar" os criadores de animais e as pessoas que consomem carne, era mais fácil e eficiente organizar orçamentos viáveis, fazer política de influência e eleger dirigentes que lutassem pelas mesmas causas, com foco deliberado nas fazendas.

Um dos principais grupos que luta pelos direitos dos animais, proprietário da Fazenda Santuário, tem adotado, nos últimos anos, táticas mais sutis, como comprar ações de grandes corporações de alimentos, organizar campanhas políticas inteligentes e fazer lobby com legisladores.

Ao invés de criticar quem come carne, eles começaram a fazer campanhas pelo tratamento adequado dos animais. Tática mais inteligente, penso eu. Mesmo que achem os carnívoros seres de outro mundo, maldosos, que pelo menos comam carne de um animal que viveu bem.

Tenho uma amiga que fica extremamente irritada quando vegetarianos tentam "convertê-la". Ela é uma das pessoas mais carnívoras que conheço, e usa como argumento que está no topo da cadeia alimentar. É fácil perceber que ela não vai deixar de comer carne, mas certamente vai preferir uma galinha que ficou ciscando pelo terreno, não apenas porque ela "viveu melhor", mas porque a carne é mais saudável e mais saborosa.

É nítida a diferença entre um ovo de grandes granjas e um caipira. A gema do primeiro é amarela clara, opaca, enquanto do caipira é menor, laranja quase vermelha (quando não é vermelha mesmo) e brilhante. Aí você pensa: se com o ovo é assim, imagina com a carne do animal.

"Ao invés de dizer as coisas do jeito que elas são mesmo, aprendemos a apresentá-las de uma forma mais moderada", disse Baur, um ativista vegetariano, para o New York Times. "Quando diz respeito ao ideal vegetariano, é uma aspiração. Se eu amaria que todos fossem vegetarianos? Sim. Mas queremos ser respeitosos, e não críticos."

Se esse for o espírito, provavelmente será mais fácil atrair mais ativistas, mais pessoas que vão optar pela carne orgânica e pelo ovo caipira. E aí talvez seja o início do círculo. Com mais pessoas optando pelo orgânico e ecologicamente correto, mais será produzido, menor será o preço, e do diferenciado, esses produtos passarão ao comum.

Radicalismos como "diga não ao mel e ao iogurte" porque são fruto da exploração animal, não vão levar essas crenças a lugar algum. Na verdade atraem mais pessoas contra, porque quem quer ser acusado de maltratar animaizinhos quando está comendo um iogurte com mel no café da manhã, tentando ser saudável?!

Sim, nós estamos no topo da cadeia alimentar (por enquanto, pelo menos) e sim, podemos tratar melhor os animais, pelo bem deles, e pelo nosso. Você pode não querer viver apenas de alimentos que caiam do pé, e por outro lado não comer soja porque ela está acabando com as florestas do nosso país. Você pode achar a carne de vitela a mais gostosa que já provou e não resistir a um bom frango à passarinho. Fazendo com respeito à natureza, aos animais e também aos seres humanos, ninguém sai perdendo.

Um comentário:

Renata disse...

"Fazendo com respeito à natureza, aos animais e também aos seres humanos, ninguém sai perdendo."

Os animais saem perdendo. Sempre e inevitavelmente quando as pessoas estão interessadas só em manter os próprios hábitos e prazeres.

A tática mencionada é inteligentíssima, sim. Mas faz parte de um trabalho de longo prazo pra que ninguém considere mais animais como alimento (pq, se merecem ser bem tratados, pq não mereceriam a própria vida?).

Comer Vitela e Foie Gras, por exemplo, deveria mexer nos brios de qq ser humano com um mínimo de sensibilidade. É bom? Esse raciocínio lembra bastante a história de Sweeny Tody (que será exibida esse ano em nova versão cinematográfica).

Quanto à cadeia alimentar, nós simplesmente não estamos nela; não é que estamos no topo, estamos fora. E, além de ciclos naturais, nós somos regidos por ética e moral e é nossa a obrigação de decidir quem merece proteção. E um animal abusado e morto merece proteção.

Eu uso todas as boas idéias da gastronomia, da culinária e adapto com criatividade para ter refeições saborosas e ao mesmo tempo éticas.