20.9.06

A feira livre ainda vale a pena?

No último fim de semana aproveitei para ir à feira. Uma boa feira que achei meio sem querer. Quem, hoje, faz compras na feira com freqüência? Eu não. Eu vou ao sacolão que fica ao lado de casa. Ele é limpo, aceita cartão de crédito, tem funcionários educados, é todo iluminado e me protege da chuva.

Pra que ir à feira? Pelo contato humano. Pelas dezenas de frutas que você prova – e acaba levando para casa – no caminho até a banca de flores. Pelas próprias flores. Pelo pastel! Nada melhor que um pastel de feira pra começar o dia.

O último domingo mudou minha percepção do que é bom ou ruim. Lá no Paraíso, nessa longa feira, vi que a concepção que eu tinha de caro e barato, confortável ou não, divertido e saudável foi alterada. Por mais que “no sacolão ali ao lado” os produtos tenham qualidade, não se compara à feira. Sim, em alguns casos ela é mais cara, mas até nisso existe flexibilidade. Quanto mais cedo você for, mais caro vai pagar. Se chegar lá pela hora do almoço, pode ser que não encontre produtos tão bonitos, mas eles continuarão sendo frescos, limpos e o preço estará melhor.

Mas mesmo no “horário de pico”, você consegue pechinchar e sair de lá com sacolas cheias de bons produtos e muito papo fiado – um dos muitos prazeres da feira. Por mais que você seja uma pessoa “fechada”, mal-humorada e que não goste de bater papo com qualquer um, é inevitável sorrir com as brincadeiras dos feirantes, com a facilidade com a qual eles baixam o preço do quilo do tomate ou com as “antiguidades” vendidas na barraca de tranqueiras, como os carrinhos de feira que sua avó usava e que ainda são muito úteis.

Ficou claro pra mim que ir à feira ainda vale a pena, deixando um gostinho de que assim posso contribuir, mesmo que pouco, para a retomada da valorização do que é nosso e da tão falada diversidade cultural. Sentimento reforçado depois que li um artigo da revista Slowfood – um movimento maravilhoso – que falava sobre o perigo da desumanização dos mercados e feiras pelo mundo. Muitos estão sendo obrigados a mudar de lugar, deixando o centro das cidades e sendo relegados à periferia, em pontos de difícil acesso. Além disso, as pessoas que antes se identificavam com um espaço, já não mais se reconhecem em outros corredores. Você que é de São Paulo, imagine se o Mercadão fosse transferido para Santo Amaro, por exemplo. Será que seria igual?

Outro ponto que o artigo ressaltava era a importância de cada fator nos mercados e feiras livres. O produto em si e o contato com o vendedor deixaram de ser tão importantes, abrindo mais espaço para as negociações monetárias. A diversidade cultural gigantesca que se reúne em um espaço como esse já não é mais notada e muito se perde por aí.

Eu não quero pregar nada contra nenhuma grande cadeia de supermercados ou até aos tão acessíveis sacolões, mas se você der uma chance à feira, aposto que vai gostar e querer voltar todas as semanas.

Um comentário:

Samantha Shiraishi disse...

Bianca
sou de Curitiba, descobri o prazer da feira ao mudar para São Paulo no verão de 2005. Minha feira é um clássico paulistano e fica na rua dos fundos do meu prédio, imagine que privilégio! Adoro passar lá com meus filhos recém-saídos da aula e comer pastel com caldo de cana, conversar com os feirantes que nos chamam pelo nome e reconhecem nossas preferências e descobrir o prazer dos alimentos da época, que os mercadões e sacolões não me davam.
Eu também escrevi um post sobre slow food!
http://samanthashiraishi.wordpress.com/2006/08/02/slow-action/
Tento trazer a idéia para meu cotidiano, fazendo sucos de frutas (da feira) ao invés de compra-los prontos, por exemplo. Acaba sendo um ritual delicioso na companhia da minha família.